domingo, 9 de outubro de 2011

Começa com uma decepção.

Começa com uma decepção. Sempre começa assim. Você fez uma grande besteira na noite anterior, daquelas que parecem não ter mais volta, e se arrepende até o último fio de cabelo. “Meu Deus, que raiva que estou de mim.” E todo o seu dia está para começar como uma grande tristeza.
Depois vem aquela conversa, com a vítima da besteira. E a tristeza só tende a aumentar. Você caminha pensativo pelas ruas, e caminha, caminha e caminha mais. Na sua cabeça está acontecendo uma tempestade e você não consegue mais vislumbrar a luz no fim do túnel. Como será a partir de agora? Por quê? Você está sozinho.
Então você ajuda aquela moça na rua, responde a conversa de uma outra senhora na escada, ajuda aquelas três moças a chegarem em casa, é educado com a jovenzinha que está perdida e faz gentilezas por todo o canto. Isso nunca acontece, normalmente. De repente o dia já não está tão chato.
Porém a tristeza continua, profunda. Encontra alguns amigos e eles falam do futuro, vocês organizam planos audaciosos e uma chama de esperança acende em seu peito. Mas é logo apagada por aquela lembrança, novamente.
Pega seu telefone e cancela seu compromisso. Quer ficar sozinho, triste, pensativo. Só que a noite toma rumos inesperados. Você sai de casa e pega a primeira condução para a casa de um grande amigo seu. Vocês planejam só um churrasquinho, pouca coisa, para distrair.
Então outro grande amigo aparece e vocês vão pegar o carro. E está montada a noitada ao melhor estilo de antigamente.
O churrasco ficou ótimo. Com direito a tomate voando na cara de uns e na camisa desse mesmo um. A TV estava chata, mas sempre há uma panicat solitária em um vídeo no youtube e umas boas músicas pra vocês darem risada.
Não suficiente, há sempre o violão e a prima que liga, com a amiga. Onde isso tudo leva? Até Jurerê Internacional, em plena madrugada, com muitas risadas, muito ACDC, um pouco de Cirlei e aquela lembrança da bandeirinha branca esvoaçando. Só cuidado com o guardinha de moto. E o burro da calça dobrada e pé descalço não pode esquecer de tirar a rede do mar. Só não ganha em burrice dos outros, que se coçam de mais burros ainda.
Por fim, tudo acaba onde começou, mas dessa vez com coisas bem mais interessantes pra assistir. O sono bate, ainda é meio cedo, mas você está satisfeito pelo dia. E aquela lembrança ruim, já não existe mais. Você ainda não esqueceu a pessoa, ainda se arrepende do que fez, porém tem mais confiança na vida e acredita que coisas muito boas podem acontecer.
Talvez tenha sido melhor assim, talvez não. É algo que não terá mais como descobrir, afinal você só sabe como algo irá terminar, vivendo aquilo. Fica o sentimento de amizade, algo que realmente irá progredir e que dará muito certo. Acima de tudo, fica a certeza de que sempre que você estiver na pior, a solução estará bem próxima de você, mesmo que outras pessoas precisem te mostrar isso. E essas outras pessoas, são seus melhores amigos e os melhores amigos do mundo.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Verão

Arno caminhava lentamente pela grama alta daquela residência, tão perto da sua, naquela vizinhança.
Ouvia-se um zunido distante de algumas televisões ligadas, quebrando o silêncio mórbido daquela noite de verão. Muitas janelas encontravam-se abertas, na tentativa de amenizar um pouco do calor que estava, apesar de não ser ainda o pico da temporada.
Calmamente ele se aproximou de uma parte da casa, na qual apenas uma luz brilhava pela janela do segundo andar. Buscou em seu bolso as pequenas pedrinhas que havia ali guardado, e as atirou com cuidado, para chamar a atenção da pessoa que estava naquele quarto.
A luz apagou-se, e um vulto aproximou-se do parapeito da janela, postando-se pra fora, e descendo pelo telhado disposto um pouco ao lado, quase sem emitir um ruído sequer.
Quando deu por si, aquela pessoa ja estava ao seu lado e ambos correram o mais rápido que conseguiam. Corriam para longe daquela casa, mas em sentido a um lugar do qual ambos tinham fixação. Conforme iam avançando, aquele som tão gostoso ia invadindo seu ouvidos e seus corações palpitavam cada vez mais rápido.
Aceleraram e já conseguiam vislumbrar aquela imensidão de água, batendo em leves ondas na areia fofa daquela região. Arno sorriu para si mesmo, estavam chegando lá.
Ao entrar na praia, os dois correram em direção ao mar, e ali se jogaram, ainda com suas roupas, despreocupados com qualquer impedimento que pudesse vir a existir, apenas sentindo-se refrescados com a temperatura amena daquela água.
Depois de um mergulho, foi sob a luz da lua que ele a observou, sua querida, com seus contornos retocados por aquele brilho que emanava de outro mundo. Sorriu para ela, e obteve uma retribuição.
Aproximaram-se e deixaram se beijar. Como era bom aquele momento...
De surpresa, o garoto a puxou para si, em seus braços e a levou para a areia, no canto mais próximo da praia. Deitou-a no chão e postou-se ao seu lado.
Os dois trocaram carinhos e beijos, e postaram-se a observar o céu estrelado, um pouco ofuscado pelo brilho da lua. Este foi um tempo que ficou para a memória dos dois, onde nada mais se conseguia pensar, nada havia com o que se preocupar. Tudo o que queriam, era curtir aquele verão, uma temporada que os fez viver sua juventude plenamente e levar dela o seu melhor.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Morte

Eu tenho uma fixação muito grande pela morte. Isso é algo que, para muitos, poderá ser novidade. Mas é algo que me fascina, algo que me faz pensar muito.
Todos crescemos sabendo que um dia chegará a hora de dizer adeus. Que de uma hora para outra deixaremos de habitar esse planeta, que não veremos mais nossos amigos, que simplesmente deixaremos de existir entre os vivos. Acredito que seja essa a responsável pela busca das pessoas por uma religião.
No fundo todos temos medo, ou pelo menos ansiedade, sobre o que vai acontecer. Eu confesso que já tive medo, mas hoje eu apenas sou curioso em relação a isso. Não é engraçado que, talvez, amanhã eu possa já não estar mais entre os vivos? É fantástico, na realidade.
Gosto de viver cada dia como se fosse o último, mas com seus limites respeitados. Porém, apesar de todos pensarmos que iremos morrer velhinhos, deitados numa cama, nunca saberemos o dia de amanhã.
Algumas coisas contribuíram muito para que eu pensasse assim. Não é novidade para ninguém, mas eu tive uma época bem prolongada de perdas, ou melhor, despedidas. Tive de dizer adeus a um grande amigo, a outro grande colega, ver dois grandes amigos meus tendo que se despedir de seus entes queridos, eu mesmo tive que me despedir de meu avô, alguém que eu muito admirava. Desde então venho observando cada pessoa e imaginando como seria a vida sem ela. É, caros amigos leitores, não é fácil.
É por isso que agradeço todas as noites por mais um dia de vida. Por isso que cada vez que embarco numa viagem para casa ou sinto algo anormal eu digo aos meus próximos que os amo. Aliás, minha família bem sabe que eu vivo falando isso.
Pensar nisso me faz dar mais valor a coisas que, antigamente, eu não pensava muito. Hoje você pode acabar seu dia discutindo com sua mãe, mas amanhã você pode acabar seu dia chorando por tê-la perdido. Nunca deixem assuntos inacabados, isso só piora a situação toda. Não quero deixar alguém com remorsos, não é de meu feitio.
Mas não só penso dos outros. Vocês já pararam para imaginar como seria se vocês mesmos partissem? Quantas pessoas chorariam por isso, quantas comemorariam. Pior ainda, a falta que você faria para seus pais, seus amigos mais próximos, toda sua família...!
Outro dia eu estava a conversar com minha mãe. Ela me contou sobre um acidente com adolescentes e de como seria o fim do mundo, para ela, ver a morte de um filho. Apenas questionei: 'E você acha que viver em prantos vai ajudar alguma coisa? Que eu gostaria de ver minha família entrar em depressão por minha causa?' Sou da opinião que se eu partir, parti. Tudo bem chorar, sentir falta. Isso é normal! Mas eu continuarei de outro lugar, e estarei olhando por aqueles que sofrem por mim, só espero que sigam com suas vidas, não é justo atrapalharem as suas por isso!
Pensamento sombrio, ou não, eu sempre imaginei que meu fim chegaria de três formas diferentes. A que eu mais penso é câncer. Não me levem a mal, sei como as pessoas que tem essa doença sofrem e os admiro. Não estou desejando. É só que é algo que sempre esteve em meus pensamentos, não tem motivo aparente pra achar isso.
A segunda maneira é em um acidente de carro. Reflexo de vários acontecimentos nos últimos 3 anos, quem é do meu círculo de amizades vai entender. Desse eu tenho medo, por isso que sou extremamente cuidadoso quando dirijo um veículo. Por fim, a terceira maneira é velhinho, deitado numa cama.
Eu já disse antes: a morte me fascina. Eu acredito que a vida não termina aqui, e que continuamos a evoluir e crescer moralmente depois dela. Isso é apenas um momento, uma agulha num palheiro, que é a eternidade. Não tenho medo da morte, pelo contrário, se ela chegar até mim significa que meu dever foi cumprido.
Acredito que tenho um potencial enorme para causar mudanças significativas a minha volta. Eu QUERO fazer isso, fazer algo pela minha cidade, meus amigos, pelo planeta! Quero ver as pessoas preservando mais, vivendo mais reguladamente, cuidando do bem precioso que são suas vidas. Uma vez um grande amigo me disse "Você é fera. E se você é assim, é reflexo de uma família muito boa". Acredito que da mesma forma que minha família me moldou, ainda há esperança para o mundo. Se tomarmos atitudes, podemos mudar o que parece impossível.
O que quero dizer é que, seja amanhã, semana que vem, daqui a 10 ou 20 anos, ou velhinho numa cama, eu quero partir com um sorriso no rosto, com a certeza de que alguma coisa eu tentei fazer para mudar os rumos daqueles que me cercam. Se fosse hoje, eu já teria esse sorriso, só espero que continue assim. E lembrem-se: eu amo vocês, todos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Felicità

Hoje me coloquei a pensar sobre o que eu quero para minha vida. Foram alguns bons minutos, mas não foi difícil de encontrar a resposta: Eu quero ser feliz.
Até aí não teve problema, é o que todos buscam. Mas afinal, o que é a felicidade?
Acredito que cada um deva ter sua própria definição para esta palavra, mas venho aqui falar de uma felicidade que percebi surtir efeito em muitas pessoas. Essa felicità é a da simplicidade.
Não existe dom mais útil do que ser simples. E quando digo isso não me refiro a meras intitulações financeiras. Não, ser simples é muito além disso.
Analisem comigo. Atualmente buscamos respostas rápidas, queremos tudo em um piscar de olhos, usamos do velho ditado "time is money". Mas amigos, estamos nos enganando. Dinheiro, soldi em italiano, pode até ajudar uma pessoa a ser feliz, mas ele não implica em felicidade. Criamos um conceito de felicidade totalmente errado.
É mais feliz a pessoa que gasta horrores numa festa, que dura em média 5 horas, ou o filho que morando longe de seus pais, e que raramente tem a oportunidade de ver sua família, tem a chance de passar um almoço no qual se reunem todos os seus parentes, ouvindo aquela música que certa vez ele não gostava, mas que hoje lhe traz boas recordações; revendo seus primos que uma vez era tão próximo; parando pra observar como todos conversam e sorriem alegres, e em como aquele momento parece um filme?
Por quê ficamos tão felizes ao receber uma carta de um amigo distante, que nem esperávamos ou que aguardávamos ansiosos? Por quê o natal é tão especial? E por que achamos um máximo quando um amigo querido, que não falávamos há tempos, nos liga?
A resposta para todas estas perguntas reside na raridade desses momentos. Exatamente. Agora você já reparou como estamos tomando rumos diferentes? Produzir em massa, comprar todo dia aquilo que mais gostamos até enjoar (o que não demora), músicas que entram e já saem da moda, comprar roupas todo mês, gastar, ir para a balada toda semana...
Não, meus amigos. Eu sempre digo que não sou deste tempo, e falo a verdade. Se ficamos tão felizes com coisas que raramente podemos ter, não seriam estes momentos que deveríamos buscar? Tudo tem seus limites, sempre disseram meus sábios pais.
Mas não é apenas isso. Também vejo pelos meus antepassados, eles se reuniram em uma pequena comunidade. Trabalharam muito, sim. Mas acima de tudo eles se ajudavam, nos fins de semana se reuniam para compartilhar de momentos de descanso, eles se importavam um com o outro, faziam festas para comemorar colheitas, e criaram um ambiente tão sensacional que eles mal poderiam prever. Preservaram suas tradições, sua cultura, mas acima de tudo eles sabiam que o mais importante eram as pessoas. Esta a segunda chave da felicidade. Pode perguntar para minha avó: ela é humilde, trabalhou muito para cuidar de seus 8 filhos e ainda teve a bondade de adotar mais um. Sofreu a pobre coitada. Mas teve uma vida muito feliz, de superações, de compaixão, de ajuda, de fé. A coisa que ela mais gosta é ver seus filhos, netos, bisnetos e agregados em sua varanda nos domingos ao meio dia, reunidos naquele almoço em família, que só hoje compreendo o grandioso simbolismo.
Algumas pessoas vivem para fazer dinheiro, buscam crescer acima de tudo. Mas isso não as tornará felizes. Estamos aqui para sermos bons em qualquer ocasião, e sermos felizes. Eu tenho isso bem claro em minha vida. Tenho planos ambiciosos, normal, mas acima de tudo quero ter os momentos bons que minha avó paterna e meus avós maternos tiveram. Bom, a vida nos ensina grandes lições em seu decorrer, muitas delas através de outras pessoas. Meus avós me ensinaram a mais importante: o sentido da vida, e que para este é preciso viver em comunhão. Não lhes disse diretamente, mas sempre procuro transmitir isso, quando depois de uma longa viagem e com poucas horas de tempo para passar com eles, os abraço e sinto aquele momento de felicidade que eles me ajudaram a descobrir.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Conjuntura econômica

Dizem que devemos pensar grande, que temos que alçar vôos distantes e crescer, enriquecer, domar o mundo. Também dizem que devemos estudar para galgar os postos mais altos, ganhar os melhores salários, ter as melhores casas, os melhores carros, as melhores roupas. Temos que viajar, conhecer o mundo, realizar objetivos pessoais, subirmos na vida...
Me perdoe quem não concorda, mas ultimamente tenho repensado sobre tudo isso. Esse meu texto é fruto de diveros pensamentos filosóficos e econômicos que venho remoendo no fundo de minha mente há um certo tempo e que estão modelando meu futuro como empreendedor, mas acima de tudo como ser humano.
Sabem, desde o início dos tempos os homens criaram regras, normas sociais de convívio, e até dividiram-se em classes sociais, em uma tentativa insana de se diferenciar como raças, tipos de sangue, opções, países e por aí vai. Graças a Deus a humanidade evoluiu e vejo no quadro atual que muitas dessas barreiras caíram. Mas ainda somos afetados por certas regras que não deveriam nos nortear.
Desde 1900 d.C. viemos sofrendo mudanças extraordinárias nos termos tecnológicos e inovacionais. Nossas economias se arraigaram, transformaram-se e recriaram-se. Mas creio que nos deixamosnos levar bastante pelo dinheiro nestas últimas décadas.
De 1950 a 1989, existia no mundo, além do capitalismo, o socialismo. E como um tinha que se provar melhor do que o outro, ambos buscavam certo equilíbrio, numa competição que julgo saudável. Venceu o primeiro, e desde então este vem se enraizando ferozmente em nossa sociedade. Mas os resultados não são felizes.
Sempre pensei que socialismo fosse algo mórbido, que as pessoas eram como escravas, que todos eram alienados e viviam como mais um na multidão. Mas venho observando nossa população e é deprimente que isso ocorra, envolvendo outros tipos de comportamento, também em nosso perfeito mundo capitalista.
Costumo observar o mundo constantemente, e como bom observador noto certas coisas que não deveriam estar acontecendo. Considero cada ser vivo tão importante quanto o outro. E quando digo isso me refiro a animais e vegetais. Todos somos moradores deste planeta, todos temos inteligência, isso já foi provado. Mas vocês repararam como nos tornamos egoístas, raptando tudo que nos aparece como se fosse nossa propriedade?
Uma vez escravizamos seres humanos, hoje isso é um absurdo. Mas e os animais que ainda nos servem? Já não é hora de substituí-los?
Antigamente nossa moradia era a natureza, hoje destruímos a natureza e a substituímos por concreto. Será que isso é realmente o correto?
Vamos ao cinema, ao shopping, fazemos compras no mercado, lucramos com investimentos, empreendimentos, empresas... e pessoas passam fome, marginalizamos algumas pessoas com nosso preconceito e as levamos ao crime, mal conhecemos nossos próprios vizinhos de porta e, quem dirá, de outros andares.
Nos consideramos uma sociedade evoluída, mas venho mudando esse meu conceito. Aqui vivemos, mas daqui partiremos e nada material irá conosco. Será que a busca pelo lucro, enquanto há tanta miséria é o certo a se fazer? Não eramos um país mais feliz quando não estavamos tão bem economicamente, mas felizes, fazendo festas e orando com outras pessoas?
O pensamento do consumo vem monopolizando a mente de muitas pessoas e elas nem se dão conta. Há tanta coisa mágica nesse planeta e não as damos valor...
Pensar grande quando não se consegue viver localmente? Não, obrigado. Lucrar alto enquanto passam fome? Também não. Digo que tenho uma concepção anormal de mundo, pois observo tudo de maneira diferente. Jamais deveremos buscar o crescimento econômico, mas sim a felicidade e a caridade.
Somos todos irmãos, seres afins na caminhada pelo auto-conhecimento e pela evolução. Se buscamos tanto progredir, já não é a hora de acordarmos para a realidade? Já não é hora de tomar uma atitude e fazer a diferença? O modo como nos organizamos hoje é realmente inteligente?
Só digo uma coisa: os seres humanos criaram o mundo como o conhecemos hoje, e são os únicos capazes de fazê-lo diferente. só nós mesmos podemos mudar a forma como o 'sistema' funciona. O problema é que achamos que não depende de nós. Mas lembrem-se: nós criamos e nós controlamos o modo como o mundo é, logo, nós mesmos podemos alterá-lo. Basta cada um fazer sua parte e tomar iniciativas.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aquela tarde de verão

- PRIMEIRA PARTE - 

CAPÍTULO I
- Beaufort, Carolina do Norte -



           Aquele era para ser um fim de semana tranqüilo, visitando a casa dos pais de Philip, seu melhor amigo ali nos Estados Unidos. Eduardo, havia um ano já, fora admitido na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. Quando isto aconteceu, ele sentiu-se flutuar: seu maior sonho estava sendo realizado. Foi admirado em sua cidade natal, um pequeno e charmoso vale, no centro de Santa Catarina, Brasil. Era o primeiro a chegar tão longe, por isso era exaltado. Carlos, seu pai, um homem de meia idade, com os poucos cabelos que lhe restavam grisalhos, um corpo cansado de sua dura batalha na vida, lhe custeara o alto valor de sua educação sem mais delongas, afinal era um dos homens mais ricos da cidade, o que significava algo, levando em conta o alto padrão das famílias que ali viviam.
            Todos colocaram expectativas sobre ele, e Eduardo jamais os decepcionou. Não era um dos melhores de sua classe, porém estava quase lá. Apesar de seu grande interesse pelos estudos, sempre teve vários amigos, com muita facilidade. Digamos que ele enxergava as pessoas de outra maneira, por isso sempre ajudava quando possível, e colecionava gratidão por onde passava. Muitos de seus amigos haviam feito escolhas graças a seus conselhos, e estavam muito contentes com as decisões que tomaram.
            Com Philip não era diferente. O jovem americano, loiro, de olhos azuis-claros, mais alto que o amigo, e mais branco da mesma forma, tinha acabado como seu colega de quarto no início do termo letivo anterior. Quando se viram pela primeira vez, parecia que já eram amigos de muitos anos. Esta sensação acabava sempre acontecendo com Eduardo, dependendo com quem ele encontrasse. Aliás, isso já nem o incomodava mais, pelo contrário, fazia-o tratar estas pessoas como se realmente já fossem amigos há longa data. Sabia de início em quem poderia confiar, ou com quem deveria pensar duas vezes antes de confessar algo.
            O jovem colega de quarto, graças a Eduardo, havia mudado completamente suas opções de curso e descobrira sua real vocação. Havia entrado com intenção de se formar um engenheiro, como seu pai, mas acabara rumando para a área da economia, que descobriu ter enorme aptidão, após dar ouvidos aos conselhos de seu amigo brasileiro.
            Mas eles não queriam saber de economia, e muito menos sobre finance, que era a área cursada por Eduardo, ou Eddy, como seus amigos americanos o chamavam. Eles estavam em Beaufort, na Carolina do Norte, cidade Natal de Phil. Era uma tarde linda de agosto, algumas semanas antes do início de suas aulas. Após muita insistência, Seu Carlos finalmente concordou em permitir que seu filho voltasse antes para a América, para então conhecer os Smith. E ali estavam eles, dirigindo pelas lindas ruas daquela cidade pitoresca, tipicamente americana, e Eduardo apreciava cada cenário com extrema admiração.
            Adorava conhecer culturas diferentes, mas a americana era a que, de longe, lhe causava mais admiração. Ficava estupefato com suas residências, seu estilo único de vida e o sonho que eram as cidades de subúrbio que cresceu assistindo em filmes hollywoodianos quando mais jovem. Mas não era daí que vinha seu interesse neste país singular. Na verdade ele já não conseguia lembrar de onde vinha esse desejo, essa obsessão com esta nação continental, que ele cultivava em seu peito. Bom, talvez ele soubesse...
            Seus pensamentos foram interrompidos quando o Corolla de Phil parou a frente de uma casa não tão colossal como as várias vistas por eles no caminho até ali, mas que tinha aquele charme que só ele, que viera de outro país, conseguia enxergar. Era uma residência de dois pavimentos, uma varanda na frente, uma garagem do lado com espaço para dois carros e um jardim cuidadosamente impecável, sem muros ou cercas. E, é claro, em um dos espaços disponíveis da frente estava pendurada aquela costumeira bandeira de listras brancas e vermelhas, mostrando o patriotismo que os americanos tanto cultivam.
            - Bem vindo ao meu lar! – exclamou Phil. Ainda estava se acostumando com o inglês, após um longo período no Brasil.
            Após uma longa apresentação aos pais do colega de quarto, com muitos risos e promessas de passeios, Ed foi levado ao quarto de hóspedes, um cômodo no segundo pavimento, não tão glamuroso como o resto do interior da casa, mas que ele teria passado a vida sem reclamar. Realmente tudo parecia como nos filmes. As ruas, as calçadas, a vegetação local, o píer, os barcos, as casas... Ele estava em êxtase e muito ansioso para sair e conhecer o resto da cidade, os amigos de Phil e os costumes locais.
            Mas acima de tudo tinha algo que lhe chamava. Uma ansiedade maior, além de conhecer a cidade. Aquela voz que sempre falou em seu peito, nas diversas noites em que, deitado em sua sacada, na tão longínqua Joaçaba, sonhava com o dia em que conheceria os Estados Unidos, hoje gritava mais alto do que nunca. Ele havia notado que esse chamamento, essa angústia vinha aumentando ultimamente, mas jamais soube explicar o por quê disso. A última vez que lhe ocorreu o mesmo, e ainda assim mais fraco, foi quando recebeu a carta de admissão e se preparava para a grande viagem. Sua mente vagou em pensamentos, tentando buscar uma resposta para esse mistério.
            E foi assim, deitado na cama, olhando pela janela para esse mundo tão diferente de suas origens, que Eduardo deixou o cansaço da viagem tomar conta e se deixou adormecer, sem se preocupar que ainda estava vestido com as roupas com que chegara, ou com que horas eram...

            - Eddy? – chamou uma voz conhecida. Eduardo abriu os olhos, havia tido um sonho estranho. Havia sonhado com sua mãe. Isabel havia falecido há muitos anos, quando ele ainda era uma criança. Em seu sonho ela lhe falava algo, estava feliz...
            Olhou em volta. De repente sua memória voltou, como um flash. Ele estava na casa de seu amigo, em Beaufort, realizando seu sonho de conhecer uma cidade tipicamente americana. Phil estava com a cabeça aparecendo na porta entreaberta que dava para o hall. Despreocupado, falou:
            - Cara, o café da manhã está quase servido. Está com fome? – Ed ficou sem entender. Provavelmente Philip havia confundido. Olhou para seu rádio-relógio, que marcava oito horas da manhã. Percebeu que estava coberto com uma manta e que ainda usava as roupas com que havia chegado ali. Subitamente uma incompreensão estampou-se em sua face. Seu amigo provavelmente a notou, pois completou – Minha mãe veio te chamar para jantar, ontem a noite, mas você estava dormindo tão profundamente que ela te cobriu com essa manta, e te deixou aí, assim mesmo, ela não queria perturbar seu descanso.
            - Ah – disse o brasileiro. Um rubor invadindo seu rosto. Havia dormido por um grande período de tempo – Gostaria de tomar um banho antes, se possível.
            - Claro! O banheiro é a última porta à esquerda do corredor.
            Assim que Phil saiu do quarto, Eduardo pôs-se de pé e inflou o peito com um ânimo de deixar qualquer um tonto. Olhou pela janela, ele estava nas nuvens, o dia estava apenas começando.
            Após o banho, ele desceu para um café da manhã com ovos, bacon e panquecas, quase um almoço para seus costumes.
            Hoje, ele iria conhecer alguns amigos de Phil. Estavam atrasados, e ele admitiu ser a causa mais provável deste atraso. Não conseguiu ser tão rápido como planejara no seu banho, mas saiu renovado.
            Embarcando no Corolla novamente, dirigiram-se a uma região central da cidade. Fazia outro dia claro naquele lugar dos sonhos, o que lhes proporcionou vestir roupas leves. Eles iriam se encontrar em uma lanchonete, e depois iriam para um passeio em seus lugares favoritos.
            O jovem estava tão emudecido com os cenários a que era apresentado que só percebeu que haviam chegado quando não ouviu mais o baixo ruído do motor. Sem demora, entrou com Phil na pequena lanchonete que haviam parado. Em uma mesa ao fundo estavam quatro jovens sentados, dois rapazes e duas garotas, mas uma delas, a que tinha a pele mais clara, contrastando com o negro de seus cabelos e o verde de seus olhos, parecia com alguma figura familiar. A voz no peito de Eduardo não gritava mais, ela estava além disso, parecia saltar por sua garganta conforme se aproximava da mesa.
            De repente veio a sensação, aquela sensação com que já estava acostumado, que várias vezes lhe acometia quando encontrava alguém que não conhecia, mas que parecia conhecer. E sabia o que viria em seguida.
            No momento em que a jovem viu Phil e pôs o olhar em Eddy, ele soube. Ela também estava sentindo o mesmo que ele. Ambos não conseguiam tirar os olhos um do outro. Mais tarde ele tentaria lembrar se respirava, pois naquele momento olhar aquela musa era tudo que conseguia. Foi como se um feitiço houvesse sido lançado sobre ele, que o impedia de desviar o olhar, de perceber o que acontecia a sua volta. E cada vez se aproximava mais da mesa.
            Um a um, Phil os introduziu. Ele cumprimentou todos, mas sem tirar os olhos daquela figura interessante, que fazia o mesmo. O olhar dela era profundo, como se ambos soubessem que algo grande estava para acontecer. Seu peito pulava descontrolado, sentia seu coração disparar.
            - ...E esta é Gabriela... – foi tudo que ele pôde ouvir. Sabia o que aconteceria, estava ansiando por isso desde que entrara naquela lanchonete e a vira. De repente soube o que a voz quis dizer por todos esses anos, ecoando em seu peito. Ela dizia para ele chegar a este lugar, este momento, ver esta misteriosa garota.
            Lentamente ergueu sua mão, tentando disfarçar sua intensa ansiedade. Ela o seguiu. Ele a tocaria e sabia o que viria. Calmamente eles tocaram suas mãos, como em um romance, ambos se encarando, e foi quando aconteceu... 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O curso


Um homem andando, mancando de uma perna, sobre uma calçada a alguns metros de distância de você. Uma pessoa cavando um buraco, ao longe, fazendo seu trabalho, focado e sem imaginar que alguém o observa.
Um pássaro voando livre, desimpedido, sem rumo e sem limitações. As folhas amarelas daquela árvore a balançar. Um transeunte qualquer, em roupas casuais, a caminhar à distância.
Não é incrível com a vida segue seu curso, despreocupada? Observando ela passar, tenho a sensação de que vejo um formigueiro. De longe apenas pequenas formigas cumprindo seu papel, sem preocupações, sem pensamentos, sem complicações.
Mas nós sabemos que não é assim. A vida tem suas complexidades sob a forma da simplicidade, isso é fato. É como olhar aquela formiga e perguntar “Será que ela está contente em trabalhar assim? Será que ela não se importa de viver toda sua existência fazendo a mesma coisa? Será que ela vai viver quanto tempo?”
            “Nós existimos. Simplesmente existimos.” Bem que eu queria que fosse assim. A verdade é que vivemos, não apenas existimos. Por baixo do véu da tranqüilidade daquela pessoa que você admira há uma infinidade de lutas internas, um milhão de conflitos que não a deixam dormir, pensamentos que rolam e rolam e a fazem perder minutos preciosos de sua vida, simplesmente porque não consegue calá-los.
            Gostaria de apenas observar a vida, mas não me contento em não questioná-la. Às vezes acho até que isso é um problema, que não pode ser normal. Mas algumas pessoas também não imaginam que eu passo por isso.
            Só sei que talvez eu nunca chegue a compreender nada. Quando acho que sei, me provo errado. Quando acho que estou errado, a vida me prova estar certo. A vida é complexa, é confusa. Dores que causam alegrias, alegrias que se transformam em tristezas, momentos que idealizamos em nostalgias, mas que nunca foram realmente daquele jeito.
            Eu só queria parar de pensar. Queria curtir mais a vida. Queria ser uma pessoa melhor. De nada adianta, porém, eu escrever e reclamar, pois a vida, por mais complexa que seja, continua seu curso. Me resta apenas acompanhá-la, sabe-se lá o que me aguarda nesse caminho. Afinal, o que eu queria mesmo, é parar de querer, porque isso está me deixando louco. Deus, dai-me forças, por favor.